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O que a ciência poderá explicar
A ciência pode mesmo explicar todos os problemas filosóficos e nos dar a tão desejada certeza sobre tudo?
publicado em 30/05/2013 | # 18
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Descartes não estava satisfeito com a escolástica e deu ênfase no dualismo corpo-mente, dividindo o mundo em dois, mundo mental e mundo físico, que aliás é o modelo que talvez a maioria das pessoas, ainda hoje, presume.

Descarte também cunhou a frase que traduz a única certeza que um ser humano pode ter: "penso, logo existo". Certeza que não tem origem científica, mas filosófica.

Descartes o fez na tentativa de derrotar o ceticismo em relação à possibilidade de se obter conhecimento sobre o mundo e a realidade. Mas a migalha de certeza que ele nos apresentou não nos livrou, sequer, da possibilidade do solipsismo (a teoria de que só você existe).

O golpe dado por George Berkely foi desconcertante para a visão cartesiana e para todas as formas de cientificismo (teoria de que a ciência resolve tudo) que ainda hoje prosperam no mesmo ritmo das igrejas evangélicas.

"O mundo físico não existe. Além de não existir é inconcebível a existência da matéria sem que haja algo para percebê-la." Com essa ideia Berkely, numa análise puramente empírica e que nunca pôde ser racionalmente refutada (apenas psicologicamente), pôs em cheque a pretensa certeza cartesiana.

Se você não consegue provar a existência do mundo físico externo, nem da matéria, nem de outras pessoas, o que dizer da ciência? O que a ciência poderia, então, provar?

Hume, que viria a ser o queridinho dos lógico-positivistas, tentou mas não conseguiu desbancar a ideia de Berkely, e acabou foi criando ainda mais problemas para a ciência quando disse que nossa noção de causalidade é irracional.

A essa altura, além de não conseguirmos provar a existência do mundo externo, nem de outras mentes, a nossa noção de causalidade não pode ser racionalmente justificada.

E agora, o que dizer das provas científicas no contexto da filosofia?

Kant perturbou-se com as ideias de Hume, mas foi Hurssel que conseguiu equacionar a questão com a sua fenomenologia (estudo dos fenômenos ou o estudo das aparências).

Segundo Hurssel, ainda que não se possa provar a existência de outras pessoas, nem do mundo físico externo e ainda que não haja total sentido em nossa noção de causalidade, ainda assim existe algo para a ciência se estabelecer.

Quando estuda-se cientificamente um objeto, por exemplo, uma mesa, não é possível provar a existência da mesa. Mas uma coisa é certa, segundo Hurssel: A ideia de mesa existente na minha mente é algo que me parece objetivo. É algo que parece ser separado de mim.

Então a ciência trabalha, humildemente, com as ideias que há em nossa mente, mas sem pretensão de provar a existência de algo que lhe corresponda na realidade.

A questão da causalidade, no entanto, não foi bem resolvida. Por exemplo, você deixa cair uma maçã. Por que motivo ela cai e, ao invés disso, não flutua? Eis a questão. O fato de a lei da gravidade ter agido num momento anterior não nos garante que agirá também num momento futuro!

Agora imaginemos que se mesmo sobre seus próprios e rigidamente delimitados problemas a ciência tem que se sujeitar ao estudo do mero fenômeno (imagem na mente)e ainda por cima fazer suposições de causalidade, o que se dirá em relação às questões centrais da filosofia como Deus, livre-arbítrio, o bem e o mal, etc.?

É comum leigos em filosofia apresentar razões científicas na vã tentativa de resolver questões eminentemente filosóficas assim como também o apelo à “autoridade” de um cientista para opinar sobre a verdade de um problema filosófico.

Ser cientista é observar fenômenos, formular e testar hipóteses relativas a um dado fenômeno rigidamente delimitado. Cientista não é pastor, que tudo sabe.

Por incrível que possa parecer para alguns, cientistas, pastores e filósofos, não são super-humanos. Muitos deles não sabem resolver sequer uma equação matemática de segundo grau ou uma função simples. O primeiro passo para uma mente livre (o que não significa mais feliz) é libertar-se desses mitos e ilusões.

O apelo à autoridade, seja científica, religiosa ou filosófica, é uma falácia. Não tenha medo de duvidar. Valorize mais sua dúvida que a certeza obscura ou que os dogmas convenientes. Pense por si próprio e, enfim, ouça o que eu digo, não ouça ninguém.


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Citações:
Johann Wolfgang von Goethe:
Quem deseja ter razão, de certo a terá, com o mero facto de possuir língua.
Karl Marx:
Democracia é a estrada para o socialismo.
Mahatma Gandhi:
Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.
Adolf Hitler:
Torne a mentira grande, simplifique-a, continue afirmando-a, e eventualmente todos acreditarão nela.


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